Retomada mais intensa da construção civil é aguardada para ano que vem

Para diretor da incorporadora, resultados devem aparecer no ano que vem CLAITON DORNELLES/ARQUIVO/JC A confiança do setor da construção civil é proporcional aos sinais apresentados pela economia brasileira e seus indicadores. A queda na taxa Selic aos menores patamares da história e novas formas de oferta de crédito começam a oportunizar negócios para outras faixas da população, com demanda reprimida durante a recessão. Levantamento recente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) apontou crescimento de 6,9 pontos no Índice de Confiança da Construção, criado como um termômetro para avaliar junto aos construtores a visão sobre o mercado. O dado apresenta o acumulado dos meses de 2019 e mostra uma reversão de pessimismo sentido em alguns períodos deste ano. Esse movimento ascendente já é possível de ser visto no principal mercado imobiliário brasileiro, o de São Paulo. As vendas e os lançamentos ultrapassaram as expectativas para este ano e dão sinal da recuperação do setor, que deve se espalhar para as demais regiões. No Rio Grande do Sul, a expectativa é da retomada dos patamares de forma mais visível a partir de 2020. Na visão do diretor executivo da Melnick Even, Juliano Melnick, a recuperação do segmento da construção ainda engatinha no Estado, mas observa as boas notícias vindas do mercado paulista. "Imaginamos uma maior força a partir do ano que vem. A construção civil é como se fosse um paciente em estado grave, que recebeu remédios e está aguardando os efeitos para ver se o tratamento foi suficiente ou precisa algo mais forte", conjectura. Os 'remédios' citados pelo executivo seriam o controle fiscal das contas públicas, reformas, redução de juros e seu consecutivo repasse para novos financiamentos. No entanto, Melnick alerta que a forte retomada prevista para o próximo ano precisa ser acompanhada por outros setores, inclusive o poder público. Ainda há, na visão dele, uma demora excessiva para obtenção dos licenciamentos - e isso se dá em um montante menor do que o esperado, fruto dessa incerteza sobre os rumos do País. "Se hoje temos um tempo elevado de espera, como será quando voltarmos a pleno? Precisamos ter a prefeitura como parceira e não como um gargalo para a retomada do setor", argumenta. A integração das secretarias para agilizar os processos não teve ainda um resultado eficaz. A média para aprovação de um projeto, atualmente, é de nove meses, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico. Além das questões de retomada, o diretor entende que o período de crise econômica foi de aprendizado para a maioria das empresas. "Muitas foram com sede ao pote nos investimentos, criaram projetos que não se sustentaram e isso resultou até em empresas em recuperação judicial", afirma. A forte queda nas vendas e o fluxo de caixa comprometido devem fazer as construtoras mudarem as estratégias, sobretudo nos lançamentos. A expectativa, na visão de Melnick, é que cada incorporadora faça uma avaliação de macroeconomia para saber se o que for lançado hoje será sustentável durante a construção e, principalmente, quando for concluído. Novo formato do Minha Casa Minha Vida deve ser anunciado em dezembro Principal programa habitacional do Brasil, o Minha Casa Minha Vida (MCMV) entrou no radar do governo federal e deve passar por alterações ainda neste ano. A principal mudança deve ocorrer na faixa 1 do programa, cujos beneficiários podem ter renda de até R$ 1,8 mil mensais para obter subsídios do governo, além de não ter cobrança de juros. A intenção é que essa renda máxima passe a ser de R$ 1,4 mil, reduzindo o percentual de pessoas com acesso a essas modalidades de moradias. As construtoras também têm sofrido neste ano com os atrasos em repasses do governo federal acerca do programa, que atingem justamente a primeira faixa do MCMV. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, diz que cerca de 500 empresas em todo o Brasil estão aguardando a liberação dos valores e que o montante aplicado até agora representa menos da metade do que fora previsto. Em agosto, uma portaria do Ministério do Desenvolvimento Regional reduziu os subsídios programados para esse ano para a primeira faixa. Os valores a serem liberados devem chegar a R$ 450 milhões e incluem as faixas 1,5 e 2, que também se valem dos subsídios federais. Com isso, cerca de 1,1 mil empreendimentos populares podem sofrer com atrasos. Em outubro, o ministro Gustavo Canuto esteve em Porto Alegre e Gravataí para a entrega de 1.568 moradias em dois condomínios residenciais. A projeção é atender quase sete mil pessoas nas duas cidades. Na capital gaúcha, 720 novas unidades vão beneficiar aproximadamente 2.880 pessoas nos residenciais Jardim Figueiras 1 e 2. As moradias têm área de 48 metros quadrados, avaliadas em R$ 88 mil. Já em Gravataí, são 1.012 casas para contemplar mais de 4.000 pessoas no residencial Breno Garcia II. As residências têm 43 metros e estão avaliadas em R$ 69 mil. Canuto explicou que o governo federal pretende lançar em dezembro uma nova política de habitação de interesse social. Segundo ele, os empreendimentos que já foram contratados e estão em construção terão recursos assegurados. "A situação fiscal é algo que precisa ser levada em conta para fazer as coisas com responsabilidade, com o pé no chão, mas a continuidade do que está em construção é garantida. Já há previsão orçamentária para o próximo ano", disse o ministro. Ainda conforme o ministro, os próximos lançamentos previstos de habitação popular já devem ser modulados no novo programa, que está sendo avaliado pela equipe econômica. "A prioridade será destinar recursos para os que mais precisam", afirmou. DESAFIOS Notícia da edição impressa de 22/10/2019. Alterada em 22/10 às 03h00min